Swift

Como era a leitura no Brasil Colonial: livros, bibliotecas, e leitores



Quem lia?

É difícil analisar o perfil daqueles que possuíam os livros. Quanto mais retrocedermos no tempo, mais seleto fica o grupo de leitores. Há quem diga que a leitura é pouco difundida hoje (o que é uma verdade), porém em épocas passadas, apenas algumas pessoas e a elite possuíam o prazer de ler.
A posse de livros variava de categoria profissional e posição social. Os detentores eram geralmente senhores de terra e escravos, ou religiosos, advogados e outros agentes da lei, médicos, farmacêuticos, alguns comerciantes, navegadores, estudiosos, e aqueles que exerciam cargos públicos.Como era muito difícil conseguir livros, e eles eram um símbolo de poder e de riqueza intelectual, muitas pessoas possuíam estantes com livros falsos para decoração.

A quantidade e qualidade de livros estava diretamente ligada a condição social e a profissão que seus donos exerciam, novamente. Geralmente, advogados tinham mais livros jurídicos. Padres, religiosos. E assim ia. Já aqueles que não tinham carreiras profissionais, possuíam vários livros religiosos, de medicina, e romances.


Quais eram os livros? Como eram as bibliotecas?

Percebeu-se um grande interesse por romances, livros infantis, obras didáticas, autores clássicos franceses, e livros sobre a lei. A Coroa Portuguesa tentava controlar a entrada e saída de livros no Brasil Colônia, que já não eram muitos. Mas, como dito anteriormente, esse interesse variava com a profissão exercida pelo proprietário.

As bibliotecas possuíam tamanhos diversos, e esse tamanho não era determinado por riquezas, mas pelo refinamento intelectual e escolaridade dos proprietários. Normalmente, as maiores bibliotecas eram de padres, advogados, e em menor número, médicos. As bibliotecas encontradas de 10 advogados identificados (nos documentos relativos a entrada em Portugal de livros do Brasil) possuíam em seu acervo de 14 a 322 volumes, dando uma média de 74,8 livros por biblioteca. Já oito eclesiásticos, tinham de 4 a 58 títulos, fazendo média de 17,5 títulos por acervo. As dos cirurgiões-médicos (seis) eram bem menores: de um a 32 títulos. Os navegadores, que também foram seis tinham de 5 a 47 livros. Foram encontradas ainda as bibliotecas de dois nobres, com 33 e 28 títulos cada.


Quantos livros?

Existem muitas lacunas na historiografia do livro na colônia, então não é possível saber com total clareza quantos inventários existiram, (assim como não é possível saber quantas bibliotecas exatamente) e em quais deles haviam livros. O número de livros na colônia era minúsculo, o de proprietários também, e cada um desses proprietários contava com poucos volumes. O provável maior proprietário de livros no século XVI foi Rafael Olivi, italiano estabelecido em Ilhéus, no atual estado da Bahia, com 27 volumes. Já no século XVII, a situação não se modificou muito.

O historiador Alcântara Machado examinou 450 inventários feitos em São Paulo entre 1578 e 1700, e apenas em 15 encontrou livros. Somando os 15 inventários, havia um total de 55 volumes. Alguns dos títulos foram: Horas de Rezar em Linguagem, Floro Cristiano, e Imagem da Vida Cristã. A única obra jurídica encontrada nesses 15 inventários foi Ordenações do Reino. Na literatura profana podemos citar: Crônica do Grão Capitão, e Novelas. Já nos didáticos temos: Tratado Prático de Aritmética e Prosódia (obra que foi proibida pelas reformas de Pombal do século XVIII)

As obras predominantes eram sempre as de caráter religioso. Só a partir do século XVIII que os outros gêneros começavam a se destacar, mas sem nunca roubar o lugar do sagrado.  Nessa época, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro (1750-1820) a propriedade de livros foi favorecida pela urbanização que ia chegando. Além disso, o Rio de Janeiro era então,1763, capital do Vice-Reino e 1808-1821 de todo o Império Português, e por isso se favorecia nos aspectos intelectuais e educativos. Haviam muitas pessoas que trabalhavam no setor de serviços e burocracia estatal, e isso os levava a ler para o exercício da profissão. Mesmo assim, ainda era uma pequeníssima parcela da população detentora de livros.

Nessa época, de 62 inventários no Rio, foram encontrados livros em 9. Em Diamantina, Minas Gerais, foram 66 inventários, com livros em 14.


Práticas de leitura oral, como eram?

Os livros libertavam as pessoas, e se tornaram uma forma de diversão e de enriquecimento da sabedoria. Muitos os queriam pra se esclarecer acerca das coisas do mundo, eram fatores de poder, certo? Tanto no âmbito privado quanto no público, os livros contribuíam para que as pessoas pensassem mais sobre a ordem estabelecida na época, seja ela política, sexual, religiosa, ou econômica. Isso os fazia questionar ou reforçar a tal ordem.

Havia uma grande desigualdade na distribuição dos livros, e poucas pessoas alfabetizadas que os compreendiam. Por isso, a partir do século XVI começou um hábito de leitura oral, pública e privada. Lavadeiras, moleques de rua, serviçais, carregadores, e outras pessoas com pouquíssimo prestígio social se juntavam para ouvir histórias. Essas leituras orais aconteciam em bibliotecas de escolas, igrejas, e nos próprios lares.

Existiam mesmo disputas de estudantes, que debatiam sobre o que viam nos livros. Essas disputas chegavam a ser públicas entre os seminaristas, assim como em Minas Gerais e no Grão-Pará, em que os alunos das aulas régias de Retórica escreviam textos a serem lidos publicamente depois de corrigidos por seus mestres.

Mais tarde, os Inconfidentes Mineiros transformavam espaços privados (e no caso do Tiradentes, também públicos) em locais de empréstimos, permutas de publicações, traduções de trechos de obras, leitura e reparos de poesias, e principalmente: discussões sobre livros e a situação da capitania de Minas Gerais.


Referências

http://www.portcom.intercom.org.br/
http://www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br

You Might Also Like

17 Comentarios